1.23.2014

A menina sardenta e o garoto de óculos de grau

A menina sardenta, todos os dias, saia para buscar seu irmão menor do outro lado da rua, na escolinha. Era esse o momento mais especial do dia do menino de óculos de grau. Ele se endireitava junto ao portão de sua casa, de um ângulo que dava para vê-la sair e chegar com seu irmão. Ele tinha apenas 7 anos. Ela tinha 14. Mas, nunca haviam se falado. Tudo começou quando ela se mudou para a casa do lado. Em um dia de outono, quando as folhas caem pelo chão e os tons das cores ficam, visivelmente, mais bonitos. O barulho do caminhão de mudança o acordou bem cedo e ele correu para a janela para ver quem estava chegando na casa vazia. A casa já estava vazia há um bom tempo. Servia para garotos pularem o muro e fazerem traquinagens. Seu pai aviou à polícia e parece que ninguém mais apareceu por lá depois disso. Eram apenas crianças brincando. Agora, crianças amedrontadas. Ou "civilizadas" como dizia o seu pai. De repente, um carro pequeno chegou, bem depois do caminhão. Era a menina sardenta mais linda que ele já havia visto. Bem, não era mais uma menina, já era uma adolescente. Mas, ele era alto, talvez, disfarçasse a idade. Ela olhou diretamente para onde ele estava e seu coração gelou. Saiu da janela quase correndo. Mas, pensando bem, deveria ter ficado lá olhando para ela, também. Foi a única vez que seus olhares se cruzaram. Depois disso, só a via naquele momento mágico de todos os dias. Os anos passaram e ele não tinha mais 7 anos, agora tinha 17, já era um rapaz. E os dois se encontravam todos os dias indo para a parada de ônibus. Ele ia para o colégio, ela para a universidade. Costumava falar dos seus amores, das amizades, de política e religião. Ele ouvia tudo com um sorriso no canto dos lábios. Quando ela descia, continuava a observá-la de longe, agora uma jovem. A jovem sardenta mais bonita que ele já viu. Nunca falou dos seus sentimentos e tentou, ao máximo, disfarça-los ao longo dos anos. Um dia, porém, ela não apareceu na frente de sua casa e, ao esperá-la um pouco mais, viu um carro estacionar. Um rapaz, de uns 25 anos, desceu do carro e chamou no portão. Não precisava de palavras, ele já havia entendido tudo. Saiu cabisbaixo, devagarzinho, a caminho da parada de ônibus dos dois. De repente, ouviu uma voz chamar seu nome. Queriam lhe dar carona. Dessa vez, não conseguiu disfarçar. Apenas agradeceu e seguiu em frente. Ela não deve ter entendido. No dia seguinte, tentou sair atrasado para não a encontrar em frente de casa. Mas, lá estava ela a esperar. "Achei que não viesse", foi o que falou. Ele não sentiu vontade de dizer nada, sorriu amarelo e ficou em silêncio. "O que houve?", ela perguntou fitando-o. Ele não sabia o que responder. "Você está triste". Respirou fundo, olhou-a bem nos olhos e disse: "Não poderia estar triste tendo você ao meu lado". O quê? Tudo ficou confuso. Ela ficou ruborizada. Os dois seguiram em silêncio. Ela não esperava ouvir algo assim. Então, segurou sua mão e disse: "Precisamos conversar". Naquela tarde, os dois perderam aula. Foi uma tarde para recordar. Sentaram-se sob a sombra de uma árvore frondosa, próximo ao centro da cidade. Um lugar bonito, tranquilo, com cantos de pássaros e calçadas de pedra do interior. Conversaram bastante. Tudo. Quase tudo. E ela entendeu aquele garotinho que se escondeu atrás da janela quando a viu chegar e olhar para ele. Entendeu que agora ele era um homem, havia crescido ao seu lado e ela nem percebeu. Entendeu seus sentimentos. Entendeu e teve medo. Pois, se deu conta de que o que sentia por ele também era especial, mas que ele havia se tornado seu melhor amigo, seu ombro, seu abrigo. E, ao transformarem aquilo tudo em algo entre homem e mulher, corria o risco de perdê-lo para sempre. Abraçaram-se. Ela o beijou. Silenciaram-se. Sorriram um para o outro e saíram dali. Foram abraçados, brincando como duas crianças. Apesar da idade e do sentimento alheio à amizade que os unia, o que eram um para o outro era mais forte do que convenções. E eles entenderam isso. E continuaram indo para a parada de ônibus juntos. Até ele comprar um carro, mais tarde e ensiná-la a dirigir. Fim.

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