8.29.2016

Aquele tal espelho interior

A liberdade de ser o que se é não significa poder ultrapassar as bordas que a/o separa de alguém. A menos que se receba um ticket de passagem livre para isso.


A imagem que nós temos dos outros, das coisas, do mundo depende da imagem que nós temos de nós mesmos junto dos outros, com as coisas, no mundo. Dizer que se conhece bem alguém é o mesmo que dizer que se conviveu muito com a pessoa ao ponto de entender suas respostas e reações. Conhecer bem uma coisa é saber do seu significado, para que serve, como preservá-la ou até da sua duração. Conhecer bem um lugar é saber das suas esquinas, curvas, encruzilhadas e desvios.
Mas, nem tudo é o que aparenta ser. Ainda mais nos tempos atuais, onde a tecnologia, a ilusão de ótica, as mensagens "subliminares" e o brincar com os sentidos tornou-se algo meio sem limites.
É difícil reconhecer o real. É muito complicado transcender a máscara e chegar à imagem pura, quando há programas como o Photoshop.
O que chega aos nossos órgãos sensitivos segue regras. Por exemplo, uma imagem passa pelos olhos e é invertida lá dentro até se transformar em impulsos nervosos que são decodificados pelo cérebro. Ou seja, nossos olhos são janelas. Entender o que se vê vai depender do nosso repertório, dos nossos conceitos e, por que não, dos nossos valores pessoais. Nossa consciência é, digamos, nosso espelho interior.
Quando se trata de uma pessoa, tudo fica mais complexo. A imagem que vamos formando dela depende não só do seu exterior, mas, muito mais daquilo que a preenche e que se vai deixando perceber por nós. É o convívio. São as reações a diversas situações. É o jeito de encarar os fatos. É o que ela faz por trás dos outros. É a sinceridade ou não. Além de tudo, é a história que carrega e que a faz ser quem é.
Todos nós somos assim. E somos analisados por aqueles que acabamos de conhecer, também.
Com o tempo e, como já falado, com o convívio, vamos relaxando mais a nossa guarda. E deixamos que a pessoa tenha mais acesso aos nossos segredos. Um processo rápido para os que não têm ainda muita maturidade. Mas, bem demorado para os que já a possuem.
Não é à toa que ouvimos tanto a frase "conheço muita gente, mas conto nos dedos os amigos".
A intimidade, após conquistada, exige de nós algumas posturas: discrição, confiança, sinceridade mesmo que doa, verdade, coragem, silêncio, respeito e comprometimento. São coisas bem importantes. Muitos não conseguem ter.
Pedir permissão parece que se tornou algum tipo de "pecado". Não. Pedir permissão é uma atitude de honestidade, autocontrole, consciência de quem se é e, no mínimo, educação. Existe sim uma área individual inviolável. E quando alguém permite que a adentremos, essa pessoa está nos dando a oportunidade de conhecê-la melhor e não nos dando o direito de adquirir o que ali está para fazermos o que quisermos com aquilo.
Confiança é base para qualquer tipo de relacionamento. E, após perdida, é bem difícil de se recuperar em sua totalidade. É um trabalho árduo para recuperá-la.
Os relacionamentos importantes, mesmo os concebidos virtualmente, não superficiais, exigem que se percebam os limites de cada um. Exigem autenticidade e autocontrole. Exigem liberdade verdadeira e cometimento. Só assim é possível que durem mais que algumas curtidas e comentários.
Não, talvez, não seja possível se conhecer alguém completamente. Conhecer a si mesmo já é um desafio em tanto. Mas, o pouco que conseguimos absorver de alguém já nos faz perceber se existe empatia e se vale a pena investir na relação, seja amorosa, seja de amizade mesma.
É importante, também, se ter em mente que não é por que alguém nos decepcionou que todas as pessoas do mundo o farão. Cada um tem seus próprios limites e carrega suas próprias histórias, tanto de sucesso quanto de frustração.
Ter paciência, muitas vezes, promove uma história de amor ou de amizade que, independente do tempo que durar, vai ficar para sempre registrado como uma imagem positiva e boa de lembrar.
Fer Perl©

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